Valor Econômico
Para fundador da Natura, demora em aceitar vitória de Biden pode prejudicar relações futuras
![Passos: “Eu gostaria que ele [Bolsonaro] tivesse a coragem de negociar de forma autônoma com todos os polos de poder” — Foto: Silvia Zamboni/Valor](https://s2.glbimg.com/TsNiOuWVzaZVPJXLKiUX4W6w9q0=/984x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2020/j/L/HjQErpSfiPg3EMjrJyvQ/foto10bra-101-pedro-a8.jpg)
O sócio-fundador da Natura e presidente da ONG SOS Mata
Atlântica, Pedro Passos, é cético com relação à capacidade do governo
brasileiro de reverter o isolamento diplomático que se afigura para o país
depois da eleição do democrata Joe Biden nos Estados Unidos. Em Live do Valor ontem,
o empresário exortou o presidente Jair Bolsonaro a “ter coragem para mudar a
posição brasileira” nas mesas de negociação internacionais.
“Eu gostaria que ele [Bolsonaro] tivesse a coragem de
negociar de forma autônoma e independente com todos os polos de poder do mundo:
China, Europa, Japão, Estados Unidos. E fizesse uma enorme força para que o
Brasil apoie e se integre aos mecanismos multilaterais como OMC, OMS e OCDE,
para colocar o Brasil na pauta, entre os líderes que discutem os problemas
globais”, disse Passos.
O primeiro sinal da incapacidade do governo brasileiro em
reorientar a política externa, no entanto, seria justamente a demora em
reconhecer a vitória de Biden, disse Passos. A relutância teria potencial para
prejudicar relações futuras.
Passos prevê dificuldades na agenda ambiental e na inserção
do Brasil em mecanismos multilaterais, que tendem a recuperar força com Biden à
frente dos EUA. O desfecho do pleito americano teria “mudado o humor do mundo”
e “encerrado uma incursão do globo pela idade média”, disse o empresário, em
referência às predileções negacionistas do governo Donald Trump e seus aliados
em todo o mundo.
Questionado sobre eventual pressão do empresariado pela
demissão de ministros como Ricardo Salles, do Meio Ambiente, a fim de sinalizar
atenção à nova geopolítica, Passos disse que seria positivo, embora
insuficiente quando as ideias vêm do próprio presidente da República.
“Esses ministros estão obedecendo as ordens do presidente.
Não adianta trocá-los para colocar outros que vão obedecer as mesmas ordens. O
que tem de mudar é a direção do país. Obviamente eles [ministros] estão
desgastados. Em caso de reorientação, deveria haver troca sim, porque eles não
têm mais credibilidade junto ao setor privado e internacional. Defendem
posições que não cabem mais depois da eleição [de Biden]”, disse.
Passos foi enfático ao dizer que “empresário omisso não
serve, que todo empresário deve se posicionar”. Atuante no debate sobre clima e
preservação, o empresário afirmou nunca ter visto uma concertação de atores
privados como a que vem acontecendo no Brasil em favor da Amazônia.
Ele reiterou que “o alinhamento automático do governo com
uma única pessoa”, Donald Trump, foi erro grave e, agora, impõe dificuldades ao
corpo diplomático para reconstruir posição de credibilidade. “Nossa política
externa, ambiental, precisa de uma grande virada. Se não, estaremos no time da
última liga”, afirmou.
Por fim, Passos afirmou que a eleição de Biden abre espaço
para candidaturas de centro no Brasil e no mundo, chapas capazes de buscar os
diversos espectros políticos e se contraporem à atual tendência de polarização.
“Vamos ter de buscar o que hoje representam Biden e Kamala [Harris]. Uma candidatura
de centro que tenta unir o país buscando a esquerda e a direita. Esse é o papel
de um grande articulador do país, o que precisamos para 2022.”
Sobre o momento econômico, Passos afirmou que o governo está
paralisado na agenda de reformas e muito dependente de “uma base frágil”, o
Centrão, e teria esquecido a agenda de produtividade. O empresário citou o
desafio climático como oportunidade para inovação e geração de novos tipos de
emprego, sobretudo relacionados a energias alternativas e economia digital.
“Não vamos precisar do mesmo tipo de infraestrutura que temos hoje. Vamos usar carros compartilhados. Eu não vejo o Brasil pensando nisso, mas sim na indústria do passado, na mineração na Amazônia, na indústria tradicional do aço, na proteção exacerbada de uma indústria automobilística velha. Estamos diante de uma nova oportunidade e corremos o risco de, mais uma vez, deixar o bonde passar”, disse Passos.
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