Por que a indústria não exporta?

Edmar Bacha

VALOR (publicado em 31/05/2021)

Causa surpresa que mesmo com o câmbio tão desvalorizado a indústria brasileira não consiga exportar. Em avaliação trimestral da qualidade do comércio exterior, a Confederação Nacional da Indústria observa com desalento que “a participação de industrializados na pauta exportadora caiu de 46% no primeiro trimestre de 2020 para 42% no primeiro trimestre deste ano”.

Tradicionalmente,

os representantes da indústria dizem que não exportam porque os juros são muito

altos e o câmbio muito valorizado. Os juros baixaram e o câmbio desvalorizou,

mas a indústria continua não exportando. Na lista de reclamações dos

industriais também constam os impostos altos e distorcidos – mas esses são

rebatidos quando os produtos são exportados, portanto, essa também não deve ser

a razão.

O CEO da Pirelli

para a América do Sul deu recentemente entrevista a O Globo (23/05) que motiva

uma explicação para o paradoxo. Depois de se referir à imprevisibilidade do

governo e ao retardamento da reforma tributária, diz: “Além disso, o real tão

desvalorizado frente ao dólar também não ajuda”. Real desvalorizado não ajuda a

indústria? Como pode ser?

Vamos por partes.

Os economistas costumamos dividir os bens e serviços num conjunto que chamamos

de comercializáveis – os que entram no comércio exterior – e outro que chamamos

de não-comercializáveis – os destinados exclusivamente ao mercado interno. A

indústria em geral devia estar nos produtos comercializáveis, pneus em

particular podem ser exportados e importados. Se os pneus fabricados no Brasil

são comercializáveis, por definição deveriam se beneficiar de um real

desvalorizado, pois este encarece os pneus importados em moeda nacional e barateia

os pneus nacionais em moeda estrangeira. Por que, então, a desvalorização do

real não ajuda?

A explicação parece

estar num fenômeno observado nos anos 1960 pelos economistas Harry Johnson e

Jagdish Bhagwati e por eles denominado de “crescimento empobrecedor”. Quando

uma multinacional investe no Brasil, ela o faz para substituir produtos que

antes exportava para o país e que agora não consegue mais fazê-lo pelo aumento

das tarifas às importações. Os produtos que fabrica aqui são mais caros que os

importados, mas ainda assim conquistam o mercado interno por causa da proteção

tarifária. Como são produtos caros e possivelmente de qualidade inferior não

conseguem ser exportados, mesmo com o câmbio desvalorizado.

Embora

aparentemente comercializáveis, esses produtos são na prática

não-comercializáveis, cujos custos, que incluem insumos importados, aumentam

quando o real se desvaloriza. Para os acionistas da multinacional, pior ainda.

Pois vendem os produtos localmente em reais, mas querem converter seus lucros

em moeda forte e esses encolhem quando o real se desvaloriza.

Isso esclarece por

que a desvalorização não ajuda. Uma multinacional que vem para o Brasil para

substituir importações e explorar o mercado interno vê seus lucros em moeda

forte diminuídos quando o real se desvaloriza.

O país permite a

livre entrada de empresas estrangeiras, mas cria embaraços às exportações e

importações de bens e serviços. Esta é uma receita pronta para o crescimento

empobrecedor de que falam Harry Johnson e Jagdish Bhagwati. As multinacionais

prosperam ao explorar o mercado interno protegido. Por exemplo, produzindo e

vendendo, dentro do país, carros de qualidade inferior com preços elevados,

pois não há a concorrência de carros importados nem a possibilidade de produzir

carros melhores, devido às restrições à importação de máquinas e insumos de

qualidade. Mas o resto do país empobrece, ao ver seus recursos domésticos

aplicados na substituição ineficiente de importações (automóveis caros e de

qualidade inferior aos importados) em lugar de serem empregados na produção de

bens e serviços nos quais o país poderia competir no mercado internacional.

Em contraste com a

abundante evidência dos benefícios do comércio internacional, o Brasil

permanece sendo umas das economias mais fechadas do mundo. Grandes economias

são grandes exportadoras: os Estados Unidos são a primeira economia do mundo e

a segunda maior exportadora; a China é a segunda maior economia e a primeira

exportadora; o Japão é a terceira maior economia e a quarta maior exportadora;

a Alemanha é a quarta maior economia e a terceira maior exportadora; a França

ocupa a quinta posição tanto no tamanho da economia quanto na importância das

exportações; o Reino Unido tem a sexta maior economia do mundo e é o décimo

maior exportador.

Já o Brasil, em

2018 a oitava maior economia do mundo, era apenas o 25º maior exportador. O PIB

do Brasil representava 3% do PIB mundial, mas suas exportações alcançaram

apenas 1,1% das exportações mundiais. Um gigantinho em termos de PIB, o Brasil

é um anão em termos de exportações.

O que se vê do lado

das exportações se confirma do lado das importações. Em 2018, a participação

das importações no PIB do Brasil foi de apenas 11,6%. Esse é o menor valor

entre os 164 países considerados pelo Banco Mundial

O que fazer? A

resposta quem sugere é o ex-prócer da indústria automobilística, Carlos Ghosn,

em entrevista há tempos para o Valor. Quando perguntado

por que não fabricava aqui Renaults de tão boa qualidade quanto os franceses,

ele respondeu: “Deixem-me importar insumos da Europa que eu produzo aqui carros

tão bons quanto os de lá”. É o que fez o México, cuja indústria

automobilística, integrada às dos EUA e Canadá, fabrica automóveis com

produtividade duas vezes maior do que a brasileira, como estima a consultoria

McKinsey.

Para o país interessa atrair multinacionais, mas não somente para vender ao mercado interno, e sim para também exportar como o fazem no México e na Ásia. Para isso, é necessário melhorar a qualidade, ter maior especialização, expandir a escala e acirrar a concorrência. O que só se consegue com integração às cadeias internacionais de valor. Urge abrir a economia para que a indústria brasileira consiga exportar quando o câmbio se desvaloriza!

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/por-que-a-industria-nao-exporta.ghtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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Edmar Bacha

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