Precisamos de ousadia e responsabilidade

Affonso Pastore

Embora haja queda temporária da

produção e da demanda, o distanciamento social evita a destruição dos capitais

físico e humano, preservando o PIB potencial. Os governos elevam

significativamente os gastos em saúde e em transferências aos menos

favorecidos, e a forte expansão de crédito em escala sem precedentes deve

impedir (ou reduzir) a quebra de empresas. Parte do crédito é dirigido ao

pagamento dos salários, incentivando as empresas a manter os empregos e a renda

dos funcionários. Se fosse uma recessão convencional disparada pela queda de

demanda, esta teria que ser imediatamente estimulada. Porém, quando ocorre uma

queda simultânea de demanda e oferta, com esta última temporariamente incapacitada

de reagir, não há como o multiplicador keynesiano possa funcionar, o que

somente ocorrerá quando o freio à oferta for aliviado.

Com as fábricas paradas e as lojas de

portas fechadas, não é possível que a oferta responda aos estímulos da demanda.

O colapso da receitas das empresas implode os lucros e adia os investimentos,

contraindo a demanda, e ainda que o financiamento lhes permita manter o

emprego, há uma queda de renda das famílias, contraindo o consumo. Para que a

economia se recupere é preciso que a oferta responda à demanda, o que não

acontece enquanto persistir o choque de oferta.

Esta não é uma recessão descrita em

livros de texto, que se resolve com remédios convencionais. Para evitar a

destruição do capital físico e humano a política monetária deve inicialmente

ser direcionada a manter as empresas vivas através de crédito abundante, e não

há por que impor limites. Ao final, as empresas estarão aptas a produzir, mas

isto depende de nossa coragem e responsabilidade de fazer o que é necessário. A

reação das empresas será mais rápida e intensa se os funcionários forem

mantidos, preservando o investimento feito no seu treinamento. Mas é

fundamental que não nos acovardemos. Aos tesouros dos países cabe realizar

gastos em saúde que forem necessários – elevando a oferta de leitos de UTI,

remédios e equipamentos –, e não economizar nas transferências de renda aos

desassistidos, preservando o capital humano. A escala na qual isto já vem

ocorrendo nos EUA e na Europa é uma medida do que é necessário.

A previsão é que a paralisação

econômica durante o distanciamento social será seguida de uma recuperação, mas

infelizmente a recessão na qual já estamos será profunda e duradoura, em escala

mundial pior do que a de 2008/09. Há muitos cenários possíveis, todos cercados

de muita incerteza, mas serei otimista se projetar que ao final de 2020 o PIB

brasileiro tenha se contraído em apenas 5%. Estaremos mais habilitados a

crescer em 2021 se formos mais ousados e responsáveis agora, mas sabemos,

também, que se sairmos rapidamente do ‘lockdown’, como quer o nosso presidente,

correremos o risco de uma nova aceleração do contágio, como em Cingapura e no

Japão, o que aprofundaria ainda mais a recessão.

Começamos a enfrentar esta crise com

uma situação fiscal frágil, e ao final deste ano teremos uma relação dívida/PIB

próxima de 90%. Não é hora de tomar isto como um limite ao que é necessário.

Gastemos agora o que for preciso, resistindo à pressão dos oportunistas, que

são muitos, com o compromisso de sermos sérios no futuro. A equipe econômica

tem a obrigação de reagir proporcionalmente à gravidade do problema sem se

acovardar, escondendo-se das críticas de que gastamos demais. Se o fizemos,

terá sido para evitar o pior.

A Bolsonaro resta curvar-se aos ensinamentos da ciência e abandonar a arrogância com a qual vem negando a necessidade do isolamento social. Ainda que ele seja contido em seus objetivos, influenciará os mais pobres e menos informados a violarem a quarentena, gerando o risco de uma aceleração da infecção, com consequências econômicas e sociais desastrosas.

Fonte: Estado de SP

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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