Embora haja queda temporária da
produção e da demanda, o distanciamento social evita a destruição dos capitais
físico e humano, preservando o PIB potencial. Os governos elevam
significativamente os gastos em saúde e em transferências aos menos
favorecidos, e a forte expansão de crédito em escala sem precedentes deve
impedir (ou reduzir) a quebra de empresas. Parte do crédito é dirigido ao
pagamento dos salários, incentivando as empresas a manter os empregos e a renda
dos funcionários. Se fosse uma recessão convencional disparada pela queda de
demanda, esta teria que ser imediatamente estimulada. Porém, quando ocorre uma
queda simultânea de demanda e oferta, com esta última temporariamente incapacitada
de reagir, não há como o multiplicador keynesiano possa funcionar, o que
somente ocorrerá quando o freio à oferta for aliviado.
Com as fábricas paradas e as lojas de
portas fechadas, não é possível que a oferta responda aos estímulos da demanda.
O colapso da receitas das empresas implode os lucros e adia os investimentos,
contraindo a demanda, e ainda que o financiamento lhes permita manter o
emprego, há uma queda de renda das famílias, contraindo o consumo. Para que a
economia se recupere é preciso que a oferta responda à demanda, o que não
acontece enquanto persistir o choque de oferta.
Esta não é uma recessão descrita em
livros de texto, que se resolve com remédios convencionais. Para evitar a
destruição do capital físico e humano a política monetária deve inicialmente
ser direcionada a manter as empresas vivas através de crédito abundante, e não
há por que impor limites. Ao final, as empresas estarão aptas a produzir, mas
isto depende de nossa coragem e responsabilidade de fazer o que é necessário. A
reação das empresas será mais rápida e intensa se os funcionários forem
mantidos, preservando o investimento feito no seu treinamento. Mas é
fundamental que não nos acovardemos. Aos tesouros dos países cabe realizar
gastos em saúde que forem necessários – elevando a oferta de leitos de UTI,
remédios e equipamentos –, e não economizar nas transferências de renda aos
desassistidos, preservando o capital humano. A escala na qual isto já vem
ocorrendo nos EUA e na Europa é uma medida do que é necessário.
A previsão é que a paralisação
econômica durante o distanciamento social será seguida de uma recuperação, mas
infelizmente a recessão na qual já estamos será profunda e duradoura, em escala
mundial pior do que a de 2008/09. Há muitos cenários possíveis, todos cercados
de muita incerteza, mas serei otimista se projetar que ao final de 2020 o PIB
brasileiro tenha se contraído em apenas 5%. Estaremos mais habilitados a
crescer em 2021 se formos mais ousados e responsáveis agora, mas sabemos,
também, que se sairmos rapidamente do ‘lockdown’, como quer o nosso presidente,
correremos o risco de uma nova aceleração do contágio, como em Cingapura e no
Japão, o que aprofundaria ainda mais a recessão.
Começamos a enfrentar esta crise com
uma situação fiscal frágil, e ao final deste ano teremos uma relação dívida/PIB
próxima de 90%. Não é hora de tomar isto como um limite ao que é necessário.
Gastemos agora o que for preciso, resistindo à pressão dos oportunistas, que
são muitos, com o compromisso de sermos sérios no futuro. A equipe econômica
tem a obrigação de reagir proporcionalmente à gravidade do problema sem se
acovardar, escondendo-se das críticas de que gastamos demais. Se o fizemos,
terá sido para evitar o pior.
A Bolsonaro resta curvar-se aos ensinamentos da ciência e abandonar a arrogância com a qual vem negando a necessidade do isolamento social. Ainda que ele seja contido em seus objetivos, influenciará os mais pobres e menos informados a violarem a quarentena, gerando o risco de uma aceleração da infecção, com consequências econômicas e sociais desastrosas.
Fonte: Estado de SP
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
