Quando a inflação sobe

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

Valor Econômico


Dados recentes confirmam que a economia americana está aquecida, provavelmente crescendo

além do potencial. A taxa de desemprego, por sua vez, segue abaixo dos níveis geralmente

considerados, inclusive pelo Fed (o banco central dos EUA), como consistentes com taxas de

inflação estáveis. E o governo está em vias de injetar estímulo fiscal extra na economia.

A possibilidade de um eventual superaquecimento da economia americana, com as consequências naturais sobre as trajetórias de inflação e taxa de juros, está por trás do aumento

da volatilidade observado nos mercados financeiros globais nas últimas semanas.

Os EUA, ao contrário do Brasil, têm experiência histórica de inflação baixa. Mas há uma exceção: o período de meados dos anos 60 a meados dos 80, que foi caracterizado por taxas de inflação e juros bastante elevadas. As lições desse episódio, descrito na literatura acadêmica como a Grande Inflação, mostram-se particularmente interessantes na atual conjuntura.

A taxa de inflação (preços ao consumidor) nos EUA saiu de 1,5% em 1959 (variação interanual

em dezembro) para 5,9% em 1969, e 13,3% em 1979 e ainda estava no relativamente elevado

patamar de 4,6% em 1989.

A aceleração não foi monotônica, ocorreu em etapas. A inflação no mandato Kennedy-Johnson

(1961-1964) teve média anual de 1,2%, que foi também a taxa observada no fim do período. No

governo Johnson (1965-1968), a taxa média se elevou para 3,3%, sendo 4,7% no último ano, sob

a influência de gastos militares (guerra do Vietnã) e sociais. O desemprego, média de 5,8% na

primeira metade dos anos 60, com máxima de 7,1%, em 1961, caiu para 3,9% na segunda metade, com piso de 3,4% na virada de 1968 para 1969 taxa inferior ao então patamar

considerado consistente com inflação estável.

O motivo por trás da aceleração inflacionária é claro: expansão fiscal chancelada por uma política monetária acomodatícia, muito influenciada pela ideia de que seria possível assegurar uma redução permanente da taxa de desemprego mediante tolerar uma taxa de inflação maior

(seguindo a versão original da Curva de Phillips). Curiosamente, havia resistência entre os

economistas do governo e do banco central em aceitar que a aceleração da inflação pudesse ter

algo a ver com política econômica; o processo era geralmente associado a fatores idiossincráticos e setoriais (geralmente preços de alimentos de matérias-primas).

O primeiro governo Nixon (1968-1972) foi marcado por forte deterioração da qualidade da política econômica. Após tentativa de estabilização convencional em 1969-1970, o governo optou por sair do regime de Bretton Woods, voltar às políticas expansionistas e tentar conter a inflação mediante controles de preços e salários (inicialmente por 90 dias, a partir de agosto de 1971, e que foram implementados de forma intermitente até 1974). O Fed, sob Arthur Burns, parecia acreditar que não valia a pena conter a demanda para reduzir a inflação.

A economia mundial aquecida e o enfraquecimento das âncoras nominais depois da abandono

do regime de Bretton Woods criaram ambiente propício para o choque do petróleo de 1973, que

levou a inflação para um novo patamar. De 4,7% ao fim de 1968, a inflação atingiu 8,9% no fim

de 1973, e 12,1% um ano depois. Os gestores da economia americana, mostrando evolução

frente à década anterior, aceitavam que não seria possível comprar menos desemprego,

permanentemente, com um pouco mais de inflação, mas pareciam subestimar a taxa de

desemprego neutra e, inicialmente, superestimar o efeito desinflacionário de aumentos do

desemprego efetivo em relação ao neutro. Esse otimismo foi drasticamente revisto depois da

recessão do início da década, e substituído por um grande pessimismo: a visão de que a política

monetária seria incapaz de conter processos inflacionários derivados de pressões salariais.

A inflação seguiu elevada, mesmo com estagnação econômica e alta do desemprego, por toda a

década de 70 e atingiria seu auge, perto de 15%, no primeiro trimestre de 1980. Mas a essa

altura, a política monetária já estava sob a liderança de Paul Volcker no Fed, e o consenso

profissional apoiava o uso ativo de políticas de demanda (e não instrumentos heterodoxos) no

controle da inflação. O resto da história é bem conhecido.

As lições do início da Grande Inflação americana são várias. O processo, em si, foi prolongado.

Foram precisos cerca de três anos de economia aquecida para levar a inflação de 12% (no início

de 1966) para 45% (início de 1969). O processo foi caracterizado, também, pela adoção, por

parte dos responsáveis pela política econômica, seja na Casa Branca ou no Fed, de visões muito

otimistas sobre o potencial de crescimento não inflacionário da economia. Depois, quando essas

conjecturas se mostraram erradas, foi adotada inicialmente uma postura extremamente negativa quanto à capacidade de a política monetária conter a inflação.

Evidentemente, mudanças na estrutura econômica e institucional (e também demográficas) nos

EUA recomendam cautela na extrapolação dessas lições para a conjuntura atual. Talvez a maior

lição tenha sido, como enfatizaram Romer e Romer, em trabalho de 2013, que o perigo aumenta

quando as autoridades subestimam a relevância e a potência da política monetária. Dado o

histórico recente, é de se esperar que o Fed, mesmo após a recente mudança de guarda, não vá

enveredar por este caminho.

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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