Nos últimos meses o Índice de Preços ao Produtor
(IPA) da FGV apresentou forte aceleração. De maio a agosto,
rodou a cada mês, sequencialmente, a 9%, 11%, 14% e 22%, em comparação com os
mesmos meses de 2019.
O IPA é fortemente afetado pela elevação do preço
do minério de ferro e das commodities agrícolas. O preço no mercado
internacional tem subido, com a robusta recuperação da economia chinesa e com
as políticas de sustentação de renda que têm bancado o consumo de alimentos
mundo afora.
O preço das mercadorias que exportamos tem se
elevado no mercado internacional. De fato, nossos ganhos de termos de troca,
entre março de 2019 e junho de 2020, superam os de nossos parceiros comerciais
em 13%.
O
preço do feijão carioca teve uma retração de 5,85% em agosto, na comparação com
julho, o feijão preto também recuou no mês, em 0,45%. No acumulado de 2020,
porém, ambos os preços seguem em alta de 12,1% e 28,9%, respectivamente
Em geral, há um efeito gangorra entre variações de
termos de troca com o câmbio nominal: sempre que temos expressivos ganhos de
termos de troca o câmbio se valoriza e vice-versa. A gangorra insula a economia
brasileira dos efeitos inflacionários da elevação dos preços das commodities.
Trata-se de uma das maravilhas do câmbio flutuante.
A evolução do diferencial dos termos de troca com
nossos parceiros comerciais explica aproximadamente 50% dos movimentos da taxa
de câmbio, para uma série trimestral da moeda.
Os 50% restantes dos movimentos do câmbio na
frequência trimestral estão associados aos movimentos de curto prazo da conta
financeira.
A piora da percepção de risco desde 2019,
recentemente agravada pela deterioração fiscal em consequência das
medidas de enfrentamento da epidemia e pelas incertezas ligadas ao orçamento de 2021, desfez o efeito gangorra. Em
um período em que o câmbio, pelos movimentos dos termos de troca, deveria ter
se valorizado 14%, desvalorizou-se 28%. Segundo nossa medida, o câmbio se
encontra, frente ao equilíbrio de longo prazo, 26% mais fraco. Trata-se da
posição mais depreciada desde o início da série em 1998.
Os ganhos dos termos de troca, isto é, a alta no
mercado internacional da cotação das commodities, associada a um real mais
fraco, resultou na inflação no IPA.
No relatório de inflação do Banco Central,
divulgado há duas semanas, há estudo sobre o repasse do IPA no IPCA. O repasse
nos alimentos tem sido pleno, mas a transmissão para outros itens,
principalmente combustíveis, tem sido, provavelmente em função da redução da
atividade econômica com a pandemia, reduzida.
Como afirmou o diretor do Banco Central, Fabio
Kanczuk, em sua entrevista coletiva de divulgação do RI, o IPCA está “um pouco
grávido do IPA”.
A dinâmica da inflação é o resultado de quatro
forças: inércia, expectativas, câmbio e ociosidade. Se expectativas e câmbio
apontarem para uma trajetória de elevação da inflação, a ociosidade não
conseguirá segurar por muito tempo. Mesmo com salários contidos pelo desemprego,
observaremos IPCA caminhando para 4% em 2021.
Quando esse momento chegar, o Banco Central se verá
em difícil situação: com 100% do PIB de dívida pública de reduzido prazo médio
de vencimento, talvez não seja possível segurar a inflação com subida de juros.
Talvez o BC mande o seguinte recado à sociedade: “Ou vocês ajustam o fiscal e
façam a gestão do conflito distributivo de outra forma ou teremos que aceitar a
inflação”.
Quebrar o teto não será menos dolorido. Somente
acelerará a reinflação da economia.
Temos que construir um orçamento de 2021 que restaure a solvência do Tesouro. Se o equilíbrio político demandar aumento de carga tributária, mesmo com os efeitos colaterais de redução da eficiência e do crescimento, que assim seja. Voltar às pedaladas fiscais não resolverá, como não resolveu em passado recente de triste memória.
Fonte: Folha de S.Paulo
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
