Quebrar o teto somente acelerará a reinflação

Samuel Pessôa

Nos últimos meses o Índice de Preços ao Produtor

(IPA) da FGV apresentou forte aceleração. De maio a agosto,

rodou a cada mês, sequencialmente, a 9%, 11%, 14% e 22%, em comparação com os

mesmos meses de 2019.

O IPA é fortemente afetado pela elevação do preço

do minério de ferro e das commodities agrícolas. O preço no mercado

internacional tem subido, com a robusta recuperação da economia chinesa e com

as políticas de sustentação de renda que têm bancado o consumo de alimentos

mundo afora.

O preço das mercadorias que exportamos tem se

elevado no mercado internacional. De fato, nossos ganhos de termos de troca,

entre março de 2019 e junho de 2020, superam os de nossos parceiros comerciais

em 13%.

O

preço do feijão carioca teve uma retração de 5,85% em agosto, na comparação com

julho, o feijão preto também recuou no mês, em 0,45%. No acumulado de 2020,

porém, ambos os preços seguem em alta de 12,1% e 28,9%, respectivamente 

Em geral, há um efeito gangorra entre variações de

termos de troca com o câmbio nominal: sempre que temos expressivos ganhos de

termos de troca o câmbio se valoriza e vice-versa. A gangorra insula a economia

brasileira dos efeitos inflacionários da elevação dos preços das commodities.

Trata-se de uma das maravilhas do câmbio flutuante.

A evolução do diferencial dos termos de troca com

nossos parceiros comerciais explica aproximadamente 50% dos movimentos da taxa

de câmbio, para uma série trimestral da moeda.

Os 50% restantes dos movimentos do câmbio na

frequência trimestral estão associados aos movimentos de curto prazo da conta

financeira.

A piora da percepção de risco desde 2019,

recentemente agravada pela deterioração fiscal em consequência das

medidas de enfrentamento da epidemia e pelas incertezas ligadas ao orçamento de 2021, desfez o efeito gangorra. Em

um período em que o câmbio, pelos movimentos dos termos de troca, deveria ter

se valorizado 14%, desvalorizou-se 28%. Segundo nossa medida, o câmbio se

encontra, frente ao equilíbrio de longo prazo, 26% mais fraco. Trata-se da

posição mais depreciada desde o início da série em 1998.

Os ganhos dos termos de troca, isto é, a alta no

mercado internacional da cotação das commodities, associada a um real mais

fraco, resultou na inflação no IPA.

No relatório de inflação do Banco Central,

divulgado há duas semanas, há estudo sobre o repasse do IPA no IPCA. O repasse

nos alimentos tem sido pleno, mas a transmissão para outros itens,

principalmente combustíveis, tem sido, provavelmente em função da redução da

atividade econômica com a pandemia, reduzida.

Como afirmou o diretor do Banco Central, Fabio

Kanczuk, em sua entrevista coletiva de divulgação do RI, o IPCA está “um pouco

grávido do IPA”.

A dinâmica da inflação é o resultado de quatro

forças: inércia, expectativas, câmbio e ociosidade. Se expectativas e câmbio

apontarem para uma trajetória de elevação da inflação, a ociosidade não

conseguirá segurar por muito tempo. Mesmo com salários contidos pelo desemprego,

observaremos IPCA caminhando para 4% em 2021.

Quando esse momento chegar, o Banco Central se verá

em difícil situação: com 100% do PIB de dívida pública de reduzido prazo médio

de vencimento, talvez não seja possível segurar a inflação com subida de juros.

Talvez o BC mande o seguinte recado à sociedade: “Ou vocês ajustam o fiscal e

façam a gestão do conflito distributivo de outra forma ou teremos que aceitar a

inflação”.

Quebrar o teto não será menos dolorido. Somente

acelerará a reinflação da economia.

Temos que construir um orçamento de 2021 que restaure a solvência do Tesouro. Se o equilíbrio político demandar aumento de carga tributária, mesmo com os efeitos colaterais de redução da eficiência e do crescimento, que assim seja. Voltar às pedaladas fiscais não resolverá, como não resolveu em passado recente de triste memória.

Fonte: Folha de S.Paulo

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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