Questões de curto prazo

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

Fed deve anunciar redução de estímulos em junho e começar a elevar a taxa de juros em março de 2023

Trabalhando em uma instituição voltada para os clientes, os

economistas do Itaú têm contato diário com investidores locais e estrangeiros, bem

como empresas de vários tamanhos. Essas interações suscitam debates e

discussões sempre interessantes. Apresento na sequência algumas das perguntas

mais frequentes, bem como nossas respostas.

Uma questão que vem ganhando importância desde a virada do

ano refere-se ao impacto dos estímulos fiscais nos EUA. Dados os programas de

estímulo fiscal, quais as chances de uma alta rápida das taxas de juros? A

economia americana está se recuperando fortemente, e existe o risco de

superaquecimento. Mas o banco central (Fed), sob o novo regime de metas para a

inflação média, vai relutar em subir a taxa de juros no curto prazo. Por ora,

esperamos que o banco central americano comece a discussão sobre redução de

estímulos quantitativos em junho, e anuncie tais medidas em novembro, para

implementação em janeiro de 2022 – alta de taxa de juros apenas em março de

2023.

Fed deve anunciar redução de estímulos em junho e começar

a elevar a taxa de juros em março de 2023

Há curiosidade também sobre quando os movimentos globais de

commodities e o crescimento mundial podem começar a ajudar o real, o que na

realidade já está ocorrendo. O real teve desempenho forte em abril, apoiado

pela alta dos preços de commodities e dos juros locais. A fragilidade da moeda

brasileira vem do risco fiscal, que a tem mantido em patamares abaixo do que os

fundamentos de balanço de pagamentos sugeririam.

Diante do movimento recente da moeda, surge o questionamento

sobre até onde o real pode se fortalecer. Os dilemas fiscais brasileiros não

vão desaparecer e o Fed deve começar a mudar o tom da política monetária no

segundo semestre. Com isto, ainda que, no curto prazo, o real possa apreciar um

tanto mais (para algo no intervalo R$ 5,10-5,20), a tendência é que volte a

depreciar até o final do ano (nossa projeção é R$ 5,30).

A depreciação cambial foi o principal fator de alta da

inflação em 2021. Sendo assim, cabe a pergunta sobre qual o patamar de taxa de

câmbio que levaria o Copom a rever sua política de ajuste monetário. Considerando

que o foco da política monetária hoje é em 2022, nossos modelos sugerem que uma

taxa de câmbio no intervalo de R$ 5 a 5,75 deixaria a inflação 20 pontos

básicos ao redor da meta (com Selic terminando 2021 em 5,5% ao ano). O câmbio

deveria sair desse intervalo para levar o banco central a repensar sua

estratégia de política monetária.

Outra preocupação, no que se refere à inflação, tem a ver

com os preços no atacado. Qual é o risco de repasse dos IGPs para o IPCA?

Esperamos alta de 14% no IGP nesse ano (ante 23% em 2020), com números bem mais

altos nos próximos meses devido a efeito base, enquanto o IPCA deve subir

próximo a 5%. A diferença se deve ao fato que o peso dos serviços, que têm tido

inflação mais baixa, ser bem maior no IPCA (36%) do que no IGP (11%). Além

disso, a inflação do IPCA deve ser contida pela ainda ampla ociosidade no

mercado de trabalho.

Um dos fatores pressionando a inflação no atacado tem sido a

alta de preços de grãos. O recente aumento dos preços internacionais de grãos é

temporário ou permanente? Acreditamos que deve ser temporário. Isto porque

altas de preços suscitam uma resposta do lado da oferta, e há espaço para

ganhos de produtividade em regiões agrícolas importantes. Além disso, as

preocupações climáticas, que sustentam cotações atuais, podem ser exageradas.

Por outro lado, a política de recomposição do rebanho suíno na China pode

manter certa pressão sobre a demanda por grãos por mais tempo.

A pandemia, infelizmente, não está próxima do seu final.

Assim, é natural temer uma terceira onda, seu impacto humano e sobre a

economia. Até o momento, o Brasil vacinou cerca de 8% da população (duas

doses), enquanto 15% recebeu a primeira dose. O ritmo diário de vacinação (considerando

as duas doses) tem oscilado entre 700 mil e um milhão de pessoas. Se não

tivermos uma proliferação adicional de variantes do vírus, cenário que não pode

ser descartado, o país deve controlar a pandemia no quarto trimestre do ano

(ainda que com um número reduzido de casos e óbitos).

Finalmente, com o prolongamento da pandemia e de seus

impactos econômicos e sociais, o debate sobre uma nova extensão do auxílio

emergencial segue ativo. A questão é como conciliar um programa de

transferências sociais ampliado com o teto de gastos. Segundo nossas contas,

aumentos do número de beneficiários do Bolsa Família, além de 27 milhões de

famílias, todo o resto constante, ou aumento dos pagamentos mensais, nas mesmas

condições, além de R$ 380, iriam exaurir nossa projeção da margem de R$ 30

bilhões, dentro do teto, para acomodar despesas – isto é, alternativas além

desses parâmetros iriam requerer cortes em outros gastos, ou ameaçar o regime fiscal.

Temos recebido poucos questionamentos sobre política. Isso, talvez, porque as eleições de 2022 ainda estejam distantes e porque a agenda de reformas precisa ganhar impulso adicional. É plausível que com o tempo esse interesse se torne mais central.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/questoes-de-curto-prazo.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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