Regime fiscal está indefinido e nesse governo não será corrigido, diz Bacha

CDPP

Valor (publicado em 03/12/2021)

Economista prevê que reforma tributária para o início da nova legislatura

O Brasil está “com um regime fiscal indefinido”, e quem for

o presidente da República em 2023 precisará decidir qual será o arcabouço para

as contas públicas, segundo o economista Edmar Bacha. Na Live do Valor de

ontem, ele afirmou que “todo mundo sabia que o teto [de gastos] não era para

durar eternamente”, cenário que, com a PEC dos Precatórios, se confirmou.

“O que está segurando [o regime fiscal] agora?”, questionou.

Segundo Bacha, “certamente não será este governo” que fará a reestruturação do regime

fiscal, mas o tema precisará ser debatido após as eleições presidenciais de

2022.

Para ele, a partir da implantação do teto de gastos a “taxa

de juros real caiu substancialmente”, o que ajudou a administrar a dívida

pública, mesmo com o crescimento do estoque dessa dívida.

Nesse sentido “a PEC dos Precatórios, PEC do Calote, é

horrível”, segundo ele, afirmando que as mudanças enfraquecem a percepção a

respeito da solidez do arcabouço fiscal. O importante é que o país tenha “uma

perspectiva fiscal que não amedronte”.

Cofundador e diretor do Instituto de Estudos de Política

Econômica/Casa das Garças, Bacha foi também presidente do Banco Nacional de

Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE) e um dos formuladores do Plano Real. Com a

experiência de quem participou pessoalmente da negociação com parlamentares

para que a nova moeda fosse aprovada, ele acredita que a tendência é que seja

uma realizada uma reforma tributária também em 2023.

“Há possibilidade muito grande”, disse. “Neste governo, não

se consegue nada.”

Bacha afirmou que “rico não paga imposto no Brasil” e

elogiou a proposta de reforma do economista Bernard Appy.

Filiado ao PSDB, disse que “a perspectiva de uma eleição”

entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da

Silva (PT) “não é muito fácil de digerir”, afirmando que “há tempo para

trabalhar a terceira via”. Bacha classificou as prévias presidenciais do PSDB

como “um avanço civilizatório”. Mas, mesmo assim, defendeu que, mais importante

do que um candidato presidencial do partido, é que haja um candidato

competitivo da terceira via. Nesse contexto, sugeriu uma “simulação” de

primárias entre candidatos presidenciais da terceira via, com debates entre

eles, citando o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o ex-ministro

Sergio Moro (Podemos) e o cientista político Luiz Felipe d’Avila (Novo).

“Tem muita movimentação política nos bastidores”, afirmou.

“Vamos trazer isso para o público.” Por enquanto, Moro “largou muito bem”.

“Ninguém esperava que ele tivesse 11% [das intenções de voto]”, afirmou. “Se

continuar nessa arrancada, já teremos uma perspectiva boa.”

Já Bolsonaro não está em uma posição “confortável”. “O Banco

Central está apertando a política monetária para que a inflação não saia dos

trilhos, mas a consequência disso é recessiva”, disse.

De acordo com o economista, a inflação no Brasil “é agravada

por essa instabilidade política criada pelo governo Bolsonaro”. Na avaliação

dele, o Brasil aprendeu nas últimas décadas que “o controle da inflação elege”

e o descontrole faz o oposto.

O fato de o Brasil ser muito fechado comercialmente cria

produtos “com preços surreais e de baixa qualidade” e “é um mecanismo

concentrador de renda”, defende Bacha. “Muita gente da esquerda acha que é

assim mesmo.”

Questionado sobre os impactos negativos que a abertura

comercial poderia ter sobre a indústria nacional, que lida com custos altos,

Bacha afirmou que, “desde que o custo Brasil seja uniforme para todas as

atividades, não importa, porque o câmbio resolve isso”.

“Se o custo [Brasil] for muito alto, a gente começar a

importar muito e o câmbio se desvaloriza. A gente passa a importar menos e

exportar mais”, disse. “Suponha que não se equilibrou ainda. O câmbio se

desvaloriza mais ainda, para a gente importar menos e exportar mais.” Segundo

ele, “a flutuação do câmbio compensa o custo Brasil”.

“O custo Brasil é irrelevante para a questão da abertura”,

disse.

O economista lembrou que não só a indústria nacional defende

fortemente as barreiras tarifárias, como também o setor de serviços nacional é

favorável a uma série de barreiras não tarifárias.

Bacha defendeu ainda a importância que os investimentos em

educação fiquem focados principalmente nos níveis mais básicos de escolaridade.

Por fim, chamou a atenção para a desigualdade econômica e

social do Brasil e afirmou que “a questão fundamental é como vamos incorporar

toda essa população que por séculos foi alienada da economia básica”.

“De fato vivemos um sistema de apartheid”, disse.

A boa notícia, segundo ele, é que “temos melhores condições” do que no passado para lidar com esse problema. “A gente conhece muito melhor as condições [sociais e econômicas]”, afirmou, citando avanços na base técnica e “trabalhos de nível internacional sobre esse assunto”.

Link da publicação: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/12/03/regime-fiscal-esta-indefinido-e-nesse-governo-nao-sera-corrigido-diz-bacha.ghtml

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