Para Mario Mesquita, Brasil pode aproveitar possíveis impactos do tarifaço para conseguir alguma ‘desinflação oportunista’, o que não exime o BC de continuar usando a política monetária para controlar a inflação
Estadão
WASHINGTON – A guerra tarifária vai fazer a economia mundial crescer menos, e para alguns países, como a China, esse impacto pode ser desinflacionário. No caso do Brasil, pode ajudar o Banco Central (BC) na “tarefa difícil” de controlar a inflação, segundo o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita. O banco espera alta de 5,5% nos preços neste ano, bem acima da meta de 3,0%, com tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo.
“O Brasil pode aproveitar esse momento para conseguir alguma desinflação oportunista”, afirma Mesquita, em entrevista ao Estadão/Broadcast, às margens das reuniões de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, que aconteceram em Washington, nos Estados Unidos.
Isso não exime o BC de continuar usando a política monetária para controlar a inflação, fora a questão fiscal, alerta. “Se queremos juros menores, precisamos ter outra política fiscal”, diz Mesquita, que foi diretor de Política Econômica do BC e atuou no FMI. Para o economista, é difícil o Brasil avançar em uma agenda de consolidação fiscal sem voltar para o teto de gastos.
Abaixo, os principais trechos da entrevista:
Qual a visão dos investidores estrangeiros sobre os efeitos da guerra tarifária para o Brasil?
O que eu escutei de muitos investidores é a dúvida se o Brasil vai se beneficiar e atrair mais capital por ser um país que tem uma economia resiliente a esse tipo de choque. Se tivermos uma desaceleração nos Estados Unidos que alimente a saída de ativos americanos, como temos observado nas últimas semanas, a moeda brasileira poderia se apreciar e o Brasil ter um impacto positivo. Um cenário mais negativo provocaria o chamado “risk-off” — ou seja, a fuga de ativos de risco. Então, nesse cenário, é difícil ver o Brasil, o real especificamente, se beneficiando.
E do ponto de vista do comércio?
Do ponto de vista estritamente do comércio exterior já estamos começando a ver o aumento da demanda chinesa por produtos agropecuários brasileiros. Isso pode ter um impacto positivo sobre a balança comercial e elevar as nossas exportações em algo como US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões em 12 meses. Mas teria também um impacto potencial negativo na inflação de 0,3 ponto porcentual.
Como em 2018?
Em 2018, na primeira guerra comercial, o Brasil ganhou muito market share na China que os Estados Unidos perderam. O aumento da demanda chinesa foi tal que houve um descolamento importante do preço da soja no Brasil para o preço da soja nos EUA. E o preço da soja é superimportante para toda a cadeia de produção de alimentos. Então, tem esse lado positivo do ponto de vista comercial, mas pode ter um lado não tão positivo do ponto de vista da inflação.
Há também temores de uma enxurrada de produtos chineses entrando no Brasil…
A China tem uma produção industrial muito grande, e vai tentar escoar isso onde conseguir. O noticiário mais recente é mais benigno e indica uma mudança, pelo menos na retórica americana, na direção de buscar acordo, inclusive com a China. O grande produtor do mundo é a China e o grande consumidor são os EUA. É difícil ter uma ruptura permanente, e mesmo que a economia mundial consiga se adaptar a um afastamento dos dois, a transição implica o risco de uma desaceleração mais intensa.
O temor de recessão tem dominado as reuniões do FMI. O banco, assim como o fundo, não vê esse risco?
Não. Cortamos bastante a projeção de crescimento para os Estados Unidos, mais do que o FMI. De 2% para 1,2% neste ano, e de 2% para 1% em 2026. Não chega a ser uma recessão, mas é uma desaceleração grande. Para a economia mundial, passamos de 3,2% para 2,7% neste ano, e de 3,1% para 2,6% no ano que vem. O crescimento médio da economia global neste século é de 3,4%, então, já enxergávamos uma economia mundial que ia crescer abaixo da média antes do choque de incerteza, e agora mais ainda.
Mas manteve a expectativa de crescimento para o Brasil. Por quê?
Porque se não tivesse essa guerra tarifária, provavelmente, estaríamos elevando a projeção do PIB brasileiro por conta do novo (crédito) consignado. Estimamos um impacto de 0,6 ponto porcentual no crescimento do Brasil, algo como 0,2 pp neste ano e 0,4 pp no ano que vem. A desaceleração da economia brasileira tende a acontecer, mas os sinais ainda são incipientes.
Há riscos para o dólar?
O dólar pode se depreciar em relação a outras moedas. No fim do ano, todo mundo estava muito comprado nos EUA. Na medida em que você tem um choque de incerteza que, pelo menos em um primeiro momento, pode desacelerar a economia americana, isso quebra um pouco o cristal do excepcionalismo americano, e aí começa a ter uma saída de ativos americanos que levam à depreciação da moeda. Esse processo pode continuar.
E como moeda de reserva?
É muito mais difícil. Uma das muitas características da moeda de reserva é acesso a liquidez, que está nos mercados de capitais mais profundos. O maior deles é o americano, especificamente o dos Treasuries. Quando a União Europeia unificar o seu mercado de capitais e passar a emitir dívida comum em escala, é possível que o euro ganhe atratividade.
O tarifaço pode ser deflacionário?
A economia mundial vai seguir crescendo abaixo da sua tendência, e isso pode ter um viés desinflacionário para alguns países, notadamente a China. O impacto nas economias emergentes, no Brasil especificamente, vai depender muito do comportamento dos preços das commodities em reais. Se caírem, podemos ver um impacto positivo do ponto de vista do controle da inflação. Se não, não teremos esse impacto.
É isso que vai ditar se o Brasil surfa nessa onda de desinflação?
Historicamente, tivemos esse impacto em dois momentos. O primeiro, talvez o mais intenso, foi quando houve o choque do Lehman Brothers. O Brasil tinha uma economia que vinha superaquecida com a inflação acelerando e subindo os juros, e o choque permitiu ao Banco Central não só parar de subir, como cortar o juro agressivamente. Outro choque de intensidade grande foi o da covid-19. Em um primeiro momento, foi muito desinflacionário. Não parece que estamos lidando até aqui com choques dessa magnitude.
Qual pode ser o impacto na inflação?
O impacto na inflação também é menos claro, é incerto. Caso se materialize, ajudaria na tarefa difícil do Banco Central de trazer a inflação para a meta, dada a distância que temos hoje. Mas não exime o BC de continuar usando o seu instrumento de política monetária. Se o mundo está ajudando, o BC pode acelerar a convergência da inflação para a meta. É importante, porque a inflação tem ficado acima da meta há muito tempo. O Brasil pode aproveitar esse momento para conseguir alguma desinflação oportunista. É uma situação ideal para o Banco Central, caso o mundo favoreça, tentar avançar mais rápido na desinflação.
O BC está sinalizando isso?
O BC está olhando o cenário como todo mundo, com muita cautela. O próprio FMI traçou um cenário de referência e dois alternativos. Os Bancos Centrais em geral devem estar com essa mesma dificuldade de modelar. É uma incerteza grande.
O mundo pode ficar leniente de novo por conta do tarifaço do Trump?
Alguns países, sim, outros terão de perseverar no ajuste fiscal. Em uma economia emergente, com dívida e carga tributária elevadas, caso do Brasil, parece que o espaço fiscal para se contrapor à desaceleração mundial é muito limitado, se é que existe. A dívida bruta do Brasil deve terminar o ano próximo a 80% do PIB. A média dos países que estão em um nível inferior ao do grau de investimento é 50% do PIB. Quando o Brasil teve grau de investimento, em 2008, era 56% do PIB. Então, o Brasil tem uma situação fiscal muito difícil. Não dá para pensar em usar o fiscal para combater a desaceleração.
Como sai disso?
Acho difícil o Brasil avançar em uma agenda de consolidação fiscal sem voltar para o teto de gastos. O único período na experiência econômica brasileira recente, em que se conseguiu controlar a inflação com juros baixos, foi durante a vigência do teto de gastos. Não vale a pena ignorar a história.
O governo culpa os juros altos pelo aumento da dívida…
Os fatores que pressionam o crescimento das despesas no Brasil resultam de decisões de políticas econômicas. Às vezes, as pessoas colocam as inviabilidades políticas como se fosse um fato da natureza, algo imutável, uma lei da física. Não é. São decisões de política econômica que terão de ser repensadas para o Brasil poder controlar a despesa e ser uma economia normal, que não precisa de taxas de juros tão altas para controlar a inflação. Se queremos juros menores, precisamos ter outra política fiscal.
A inflação deve pesar nas urnas em 2026 como aconteceu nos EUA?
O fato de a inflação pesar torna muito difícil e custoso politicamente qualquer mudança na meta de inflação. Os políticos sabem perfeitamente bem que, uma vez que a meta está estabelecida, mudá-la e ficar com a pecha de inflacionista é muito ruim. Às vezes, fico espantado com o debate no Brasil. Tem muita gente dizendo que o juro agora está muito alto por conta da meta de 3%. Não é a meta de inflação, é a política fiscal que faz a diferença.
O mercado gostou do desmonte cambial na Argentina. Como o Brasil pode se beneficiar?
Nós queremos que os nossos vizinhos sejam os mais prósperos possíveis para nos ajudar no nosso processo de desenvolvimento também. A Argentina que é estável e que volta a crescer ajuda a nossa economia, o nosso setor industrial. Vamos ver como é que eles manobram isso. Ainda está no começo do novo regime cambial. A Argentina tem eleições de meio de mandato esse ano. Dependendo do resultado, se a oposição, que tem uma visão totalmente diferente de política econômica, vai bem nas eleições, o mercado pode ficar nervoso.
Link da publicação: https://www.estadao.com.br/economia/entrevista-mario-mesquita-itau-juros-outra-politica-fiscal/
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