O processo começa desta forma: atinge o câmbio e os preços ligados a ele
Na semana passada abordei o repasse da desvalorização do câmbio sobre a inflação de alimentos. Sexta-feira (9), o IBGE divulgou que a inflação de setembro foi de 0,64%, 0,10 ponto percentual acima do que se esperava.
Como discuti na
coluna passada, a inflação ainda parece restrita aos alimentos. Se
bem que já apareceu em setembro uma pressão sobre produtos de limpeza e sobre
móveis e eletroeletrônicos. O grupo habitação subiu 0,37% e o grupo artigos de
residência subiu 1%.
Desenha-se
o cenário para que a inflação feche o ano em 3% ou m pouco mais.O nível da
inflação não preocupa. A meta inflacionária deste ano é de 4% e para 2021 de
3,75%. Há muita folga na operação do regime de metas de inflação. No entanto, a
dinâmica pode preocupar.
É
possível afirmar que os grupos de preços que estão pressionados são os que
sofreram um choque de oferta, pelo câmbio,
e aqueles que, em função da quarentena e do teletrabalho, experimentaram
aumento de demanda, como é o caso de móveis e eletroeletrônicos.
É possível, inclusive, que a maior parte do repasse cambial já tenha passado.
Se não houver novas rodadas de depreciação do câmbio, a pressão sobre alimentos
se reduzirá naturalmente.
Um
fato está claro: mesmo com muito desemprego e redução do auxílio emergencial
para R$ 300, há repasse cambial para alimentos e combustíveis. A Petrobras
acaba de anunciar elevação de 4% para a gasolina e de 5% para o diesel. Novas
rodadas de desvalorização do câmbio produzirão novos choques de oferta sobre
estes itens.
O
Banco Central poderia ter vendido mais reservas ou atuado com seus outros
instrumentos para conter a desvalorização do câmbio. E o fez. Diferentemente do
que eu imaginava, a atuação do BC não foi
tão modesta. Desde janeiro, entre vender reservas e outros instrumentos, a
intervenção rodou próximo a US$ 40 bilhões.
Seria
possível afirmar que o BC deveria ter baixado menos os juros. Mas não parece
ser o caso. Com todo o repasse, a inflação deve fechar o ano a 3%, para uma
meta de 4%. A menos que o mandato do Banco Central mude, não houve erro de
política monetária.
O
câmbio, a fonte primária do processo inflacionário, encontra-se, segundo minhas
contas, na posição mais desvalorizada, em comparação com os fundamentos, de
todo o período do regime de câmbio flutuante.
As
reservas amortecem os movimentos. Não haverá grandes descontinuidades do
câmbio.
Mas
se não houver uma solução ao desequilíbrio fiscal, o processo continuará.
Estamos em meio a um processo de reinflação da economia. O início ocorre desta
forma: atinge o câmbio e os preços diretamente ligados a ele.
O
segundo passo é as pessoas começarem a esperar a aceleração da inflação.
Vejamos
para onde irá a inflação esperada pela pesquisa Focus do BC desta semana. Se
nada for feito no ajuste fiscal estrutural, vivenciaremos estagflação.
Se nada for feito, a inflação subirá. E o BC não terá muito o que fazer com o atual nível de endividamento. Ou arrumamos o fiscal ou vamos para uma lenta trajetória de reinflação da economia. Será lenta pois a posição de reservas garante que o processo será sem rupturas.
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Meu amigo e
pessoa mais do que adorável, Zuza Homem de Mello, nos deixou na madrugada de
sábado (3). Das pessoas que mais conhecia a música brasileira, partiu aos 86
anos de uma vida mais do que plena. Fará muita falta.
Zuza
tinha bastante combustível para queimar. Passar tarde no Brejinho em Ribeirão
Preto ouvindo aula de Zuza sobre samba canção foi das melhores experiências que
tive. Guardo cá na memória o belíssimo discurso de posse na Academia Paulista
de Letras. Saudades.
As opiniões aqui expressas são do autor e não
refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados
