Sem ajuste fiscal estrutural, vivenciaremos estagflação

Samuel Pessôa

O processo começa desta forma: atinge o câmbio e os preços ligados a ele

Na semana passada abordei o repasse da desvalorização do câmbio sobre a inflação de alimentos. Sexta-feira (9), o IBGE divulgou que a inflação de setembro foi de 0,64%, 0,10 ponto percentual acima do que se esperava.

Como discuti na

coluna passada, a inflação ainda parece restrita aos alimentos. Se

bem que já apareceu em setembro uma pressão sobre produtos de limpeza e sobre

móveis e eletroeletrônicos. O grupo habitação subiu 0,37% e o grupo artigos de

residência subiu 1%.

Desenha-se

o cenário para que a inflação feche o ano em 3% ou m pouco mais.O nível da

inflação não preocupa. A meta inflacionária deste ano é de 4% e para 2021 de

3,75%. Há muita folga na operação do regime de metas de inflação. No entanto, a

dinâmica pode preocupar.

É

possível afirmar que os grupos de preços que estão pressionados são os que

sofreram um choque de oferta, pelo câmbio,

e aqueles que, em função da quarentena e do teletrabalho, experimentaram

aumento de demanda, como é o caso de móveis e eletroeletrônicos.

É possível, inclusive, que a maior parte do repasse cambial já tenha passado.

Se não houver novas rodadas de depreciação do câmbio, a pressão sobre alimentos

se reduzirá naturalmente.

Um

fato está claro: mesmo com muito desemprego e redução do auxílio emergencial

para R$ 300, há repasse cambial para alimentos e combustíveis. A Petrobras

acaba de anunciar elevação de 4% para a gasolina e de 5% para o diesel. Novas

rodadas de desvalorização do câmbio produzirão novos choques de oferta sobre

estes itens.

O

Banco Central poderia ter vendido mais reservas ou atuado com seus outros

instrumentos para conter a desvalorização do câmbio. E o fez. Diferentemente do

que eu imaginava, a atuação do BC não foi

tão modesta. Desde janeiro, entre vender reservas e outros instrumentos, a

intervenção rodou próximo a US$ 40 bilhões.

Seria

possível afirmar que o BC deveria ter baixado menos os juros. Mas não parece

ser o caso. Com todo o repasse, a inflação deve fechar o ano a 3%, para uma

meta de 4%. A menos que o mandato do Banco Central mude, não houve erro de

política monetária.

O

câmbio, a fonte primária do processo inflacionário, encontra-se, segundo minhas

contas, na posição mais desvalorizada, em comparação com os fundamentos, de

todo o período do regime de câmbio flutuante.

As

reservas amortecem os movimentos. Não haverá grandes descontinuidades do

câmbio.

Mas

se não houver uma solução ao desequilíbrio fiscal, o processo continuará.

Estamos em meio a um processo de reinflação da economia. O início ocorre desta

forma: atinge o câmbio e os preços diretamente ligados a ele.

O

segundo passo é as pessoas começarem a esperar a aceleração da inflação.

Vejamos

para onde irá a inflação esperada pela pesquisa Focus do BC desta semana. Se

nada for feito no ajuste fiscal estrutural, vivenciaremos estagflação.

Se nada for feito, a inflação subirá. E o BC não terá muito o que fazer com o atual nível de endividamento. Ou arrumamos o fiscal ou vamos para uma lenta trajetória de reinflação da economia. Será lenta pois a posição de reservas garante que o processo será sem rupturas.

***

Meu amigo e

pessoa mais do que adorável, Zuza Homem de Mello, nos deixou na madrugada de

sábado (3). Das pessoas que mais conhecia a música brasileira, partiu aos 86

anos de uma vida mais do que plena. Fará muita falta.

Zuza

tinha bastante combustível para queimar. Passar tarde no Brejinho em Ribeirão

Preto ouvindo aula de Zuza sobre samba canção foi das melhores experiências que

tive. Guardo cá na memória o belíssimo discurso de posse na Academia Paulista

de Letras. Saudades.

As opiniões aqui expressas são do autor e não

refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados

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Samuel Pessôa

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