Sem política fiscal crível, risco afeta juro e câmbio e leva à inflação, diz Pastore

CDPP

Ex-presidente do Banco Central considera fundamental manter o teto de gastos e encaminhar reformas que garantam a sustentabilidade das contas públicas

Pastore: preocupação apenas eleitoral pode ampliar gastos e prejudicar programa de renda fiscalmente responsável — Foto: Claudio Belli/Valor

Sem arrumar o cenário fiscal, o que inclui a manutenção do

teto de gastos e o encaminhamento de reformas estruturais, o Brasil terá de

conviver com juros longos mais altos, câmbio mais depreciado e, futuramente,

risco inflacionário maior, alerta o ex-presidente do Banco Central Affonso

Celso Pastore, sócio da A.C. Pastore & Associados. Apesar do aperto nas

contas, ele disse ontem, em Live do Valor, ver espaço para um novo programa de

transferência de renda que, remanejando benefícios atuais, seja fiscalmente

sustentável e evite condições de pobreza. Pastore recomendou que o governo olhe

para saídas do tipo e sugeriu que a sociedade faça pressão por isso.

O economista reforçou que o país foi “pego” pela pandemia em

uma situação fiscal bastante vulnerável e, ainda assim, precisou aumentar

gastos. Relativizando a importância da discussão sobre uma retomada econômica

em “V”, Pastore, que é coordenador do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos

(Codace), afirmou que a atual recessão é a mais profunda da história do Brasil,

mas também deverá ser muito curta, com dois trimestres, assim como na crise

financeira de 2008-2009.

O auxílio emergencial foi muito importante para evitar uma

queda ainda maior no consumo das famílias, o que beneficiou sobretudo o

comércio – a trajetória dos serviços ainda gera incertezas, segundo ele.

“Quando terminar a ajuda, se não tiver algo que a substitua, vai ter um

problema no consumo”, disse. Ao mesmo tempo, Pastore considera que o programa

tem um desenho “torto”, englobando mais do que aqueles de fato em situação de

emergência e, assim, produzindo déficits maiores do que o necessário.

O cumprimento do teto de gastos está liberado neste ano, mas

volta a valer no próximo. Com reformas, o país pode ganhar algum tempo para

arrumar essas contas, disse Pastore. “Se aprovar uma reforma administrativa

dura, aquela que pega todos os funcionários, você pode convergir para a

consolidação fiscal mais devagar”, exemplificou. Se nada for feito, porém,

haverá problemas, e, sem comprometimento com dívida externa, o “prêmio de

risco” do Brasil aparece no câmbio e na “inclinação” da curva de juros,

explicou ele.

De junho de 2019 até fevereiro deste ano, a curva era

estável, com uma inclinação pequena, mas quando o BC cortou a Selic no contexto

da pandemia, os juros longos deram uma “bruta empinada”, afirmou Pastore. Com a

economia deprimida, seria difícil o movimento refletir risco de inflação. “Isso

se chama risco fiscal”, disse. Mas se o país não acertar a parte fiscal e criar

âncora, “é melhor se preparar para ver taxa de juros longa muito alta, câmbio

mais depreciado e começar a aparecer, bem lá na frente, risco maior de

inflação”, afirmou.

Segundo Pastore, uma depreciação cambial mexe no índice de

preços ao produtor agrícola muito rápido e parte disso é transferido também

rapidamente à alimentação no domicílio, que já avança 11,39% nos 12 meses até

agosto. Se o câmbio ficar estável ao redor dos atuais R$ 5,30 pelos próximos

seis meses, o repasse aos índices de preços é zero, observou. Se “brincar” de

tirar o teto de gastos, disse ele, o câmbio pode fechar mais à frente perto de

R$ 6. Isso é repassado aos preços, mexendo depois nas expectativas de inflação

e produzindo inclinação adicional da curva de juros. Nesse cenário, mesmo com a

economia deprimida, o BC pode se ver obrigado a subir juro. Assim, um choque

que seria transitório pode se tornar algo mais persistente. “Se por um caminho

ou outro o teto for mantido, esse risco é pequeno. Se não for mantido, é um

risco real”, disse Pastore.

Na sua avaliação, o governo é “confuso” na sinalização se

vai cumprir ou não o teto e, se a preocupação for apenas com a eleição de 2022,

a tendência é aumentar gastos. Fugir de questões meramente eleitorais também é

importante, segundo ele, na busca por um novo programa de transferência de

renda que respeite o teto.

Pastore reconheceu que “não é razoável” fazer política

econômica sem pensar na distribuição de renda, muito desigual no Brasil.

Segundo ele, houve ganhos nesse campo, mas “há muito para avançar”. Um dos

diretores do Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), Pastore mencionou

programa elaborado por Vinícius Botelho, Fernando Veloso e Marcos Mendes, com

apoio do CDPP, propondo a fusão do Bolsa Família ao salário-família, abono

salarial e seguro-defeso. “Você endereça o objetivo de melhorar a distribuição,

ter a extinção da pobreza extrema e, ainda, ficar dentro do teto.”

Ele disse que o governo deveria olhar para programas do tipo. “Deveria, de uma forma ou de outra, a sociedade fazer pressão na direção de que um programa assim fosse aprovado. É possível fazer, desde que se esteja pensando no brasileiro, no bem-estar da sociedade.”

Fonte: Valor Econômico

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

ESCRITO POR

CDPP

CDPPLer mais

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Avanço do crime na economia formal nos leva para a várzea, onde não sabemos jogar, diz ex-presidente da Febraban

CDPP
·

Perigos, externos e internos

Giuliano Guandalini
·

Questão de impeachment de ministro do Supremo é pertinente nos casos Toffoli e Moraes, diz Giannetti

Giuliano Guandalini
·

'Brasil crescer 2,3% com juro a 15% é surpreendente', avalia Giannetti

Giuliano Guandalini
·
Podcast

Podcast do CDPP