Sísifo

Alexandre Schwartsman

A saída da crise deverá ser lenta, entre outros motivos pela fraqueza da demanda quando a quarentena acabar; será necessário reduzir ainda mais a taxa de juros

Lojas fechadas em Paris
	                (Frédéric Soltan/Corbis via Getty Images)		                </figcaption></figure>

Economistas apreciam “fatos estilizados”, isto é, padrões que parecem emergir de certos fenômenos.

Um

deles, talvez dentre os mais bem documentados, refere-se à conhecida

persistência do nível de atividade: numa economia em expansão, o mais

provável é que o trimestre seguinte continue a mostrar crescimento; da

mesma forma, numa economia em recessão, as chances de continuidade no

trimestre seguinte são maiores do que em condições normais.

É precisamente por esse motivo que podemos falar em “ciclos” de expansão e contração da atividade econômica, ao invés de episódios curtos e aleatórios de crescimento e retração.

Todavia,

a atual recessão não teve uma origem econômica; pelo contrário,

resultou de um problema sanitário severo, cujos impactos se manifestaram

tanto sobre a capacidade produtiva de diferentes países, sua oferta,

como dos gastos, de locais e de não-residentes, a demanda.

Adicionalmente sabemos (ou, ao menos, esperamos) que o fenômeno original deverá ser temporário.

De

uma forma (vacina/medicação) ou de outra (imunidade de rebanho) a

pandemia acabará e com ela um conjunto de restrições sobre a atividade,

notadamente a oferta de trabalho, hoje fortemente reduzida pelas medidas

de distanciamento social e, não esqueçamos, pelos riscos associados à

doença.

Nesse sentido, a recessão se assemelha àquelas produzidas por desastres naturais.

De fato, recentemente dois economistas do Federal Reserve Bank of New York, Jason Bran e Richard Deitz, publicaram uma nota curta traçando precisamente esse paralelo, em particular no que se refere à reação imediata do mercado de trabalho.

Um exemplo dela foi capturado pelos pedidos iniciais de seguro-desemprego nos EUA, que saltaram de 200 mil por semana para 5,5-6,5 milhões nas últimas semanas, padrão bem distinto do que o indicado pela persistência do ciclo econômico em geral.

Assim

sendo, será que poderíamos esperar uma recuperação rápida da atividade

uma vez que as restrições à oferta fossem removidas?

Creio que não. Em parte, porque há elementos de persistência do próprio desastre.

Não

se trata, como em casos de terremotos, ou inundações, da destruição

física de infraestrutura e capacidade produtiva, mas sim da

possibilidade de perda do capital intangível (ou organizacional) de

empresas que não sobrevivam à crise.

Concretamente, se o

restaurante da Dona Maria não chegar ao fim da quarentena, os

cozinheiros não terão sequer para onde voltar, até que alguém resolva

montar um novo boteco, processo tipicamente demorado, ainda mais nessas

plagas.

Há, adicionalmente, efeitos pelo lado da demanda,

notadamente a perda de renda dos setores sujeitos à restrição, que –

sob condições plausíveis – são ainda maiores do que a retração da

oferta, levando à queda não só da atividade, como de preços, padrão que

observamos hoje tanto no Brasil como em boa parte do mundo.

Tais

efeitos também jogarão contra a recuperação mesmo quando as restrições

de oferta forem retiradas, sugerindo que, apesar da origem distinta da

recessão, há motivos para crer que o processo recessivo seja

persistente.

Nesse contexto, a melhor combinação de política

econômica pelo lado da demanda consiste em afrouxar a política monetária

combinada com a extensão da rede de proteção social, em conjunto com

medidas que, pelo lado da oferta, ajudem a preservar o capital

organizacional das empresas afetadas pela quarentena.

No que se

refere à política monetária, em particular, o motivo é claro. A queda da

demanda relativamente à oferta pode ser pensada como redução da taxa

“neutra” (ou “estrutural”) da taxa de juros, aquela que precisamente

equilibra essas grandezas.

Em resposta a isso, bancos centrais que

ainda possam reduzir a taxa de juros devem fazê-lo, o que é certamente

verdade no caso brasileiro, assim como foi no caso americano (ao

contrário de Eurozona ou Japão).

De qualquer forma, contudo, a recuperação dificilmente será imediata.

Muito

embora o nível de atividade deva se recuperar em algum grau quando a

restrição de oferta for removida, não retornaremos rapidamente para os

níveis que prevaleciam antes da crise.

Assim, a inflação, mesmo

com a forte valorização do dólar, permanecerá bem abaixo da meta ao

longo do horizonte relevante, o que – dentro da lógica do regime de

metas – deve requerer redução da Selic, hoje em 3,75% ao ano, para

níveis bem inferiores.

Ainda não temos como saber com segurança

até onde a taxa de juros pode cair. A mediana dos analistas (Focus)

aponta hoje para 3,00% ao ano, mas acredito que podemos buscar algo

entre 2,0-2,5% ao ano, mantendo a inflação de 2021 ainda próxima à meta,

já que a de 2020 deve atingir perto de 2% e há pouco que se possa fazer

para impedir isso.

Penaremos no Hades para colocar a pedra novamente a “um milímetro do Paraíso”…

Fonte: Infomoney

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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