Taxa de juros neutra: em alta?

Mario Magalhães Carvalho Mesquita

Valor (publicado em 07/09/2021)

Uma das variáveis mais importantes

para a implementação da política monetária, sob o regime de metas para a

inflação, é a taxa de juros neutra. A taxa neutra é aquela que, deflacionada

por expectativas de inflação, não induz a aceleração ou desaceleração inflacionária,

com o hiato de produto zerado. Simplificando bastante, a “regra do jogo” típica

do regime monetário vigente prevê que, quando um banco central projeta inflação

acima (abaixo) da trajetória de metas, deve elevar (reduzir) a taxa básica de

juros até que a taxa efetiva se situe em patamar adequadamente superior

(inferior) ao neutro.

A taxa neutra é uma variável que não

pode ser diretamente observada, então precisa ser estimada. Existem duas

estratégias para estimar essa variável. Uma, a mais simples, é simplesmente

calcular uma média suficientemente longa das taxas observadas. Outra, mais

sofisticada, é utilizar modelos econométricos e que mostram a sensibilidade da

taxa neutra a fundamentos macroeconômicos.

Estimar a evolução da taxa neutra é

tarefa relevante dos departamentos de pesquisa dos bancos centrais, e também

nas áreas de análise econômica do setor privado. Importante notar que essas

estimativas variam ao longo do tempo. Nas economias maduras, por exemplo, a

literatura recente indica que as taxas neutras devem ter caído em cerca de 2

p.p., desde a grande crise financeira global de 2008.

Os efeitos da pandemia sobre taxas

neutras são ainda incertos, mas podem se mostrar relevantes. Há fatores que

podem influenciar para os dois lados. Mudanças na disponibilidade relativa dos

fatores trabalho e capital, e poupança precaucional, bem como maior

desigualdade, apontam para uma possível redução adicional da taxa neutra. Por

outro lado, o expressivo incremento da oferta de títulos públicos pode apontar

para uma elevação, mesmo em economias sem os prêmios de risco observados nos

mercados emergentes.

Vale notar que a corrente onda inflacionária

global deve influenciar, também, a discussão sobre a tendência para as taxas

neutras na saída da pandemia. No Brasil, o Banco Central tem estudado o tema de

forma recorrente desde a década passada, e tem também conduzido pesquisas de

tempos em tempos junto a participantes de mercado. A primeira pesquisa, em

fevereiro de 2012, reportou que a visão dominante do mercado era de uma taxa

neutra em torno a 5,5% ao ano. Um boxe no Relatório de Inflação publicado em

setembro daquele ano sugeria uma taxa neutra entre 3% e 4%.

Depois de longo hiato, o Banco

Central fez outra pesquisa junto ao mercado, em 2017, após a aprovação de

importantes reformas, e colheu a resposta (mediana) que a taxa neutra de curto

prazo seria de 5%, caindo para 4% no horizonte de cinco anos.

Um gráfico, incluído em boxe do

Relatório de Inflação de dezembro de 2019, apontou para uma redução da taxa

neutra para 3%, ante 5,5% em 2016. Finalmente, uma pesquisa junto ao mercado em

julho de 2021, aponta para uma taxa neutra de médio e curto prazo de 3% a.a.

Trabalhos acadêmicos e do FMI indicam uma taxa neutra no intervalo entre 4,5% e

2% a.a., recuando no passado recente.

A literatura, em suma, mostra uma

taxa neutra variável, e que recuou em função de fatores internacionais e, mais

importante, dos efeitos das reformas implementadas desde 2016. Tais reformas

incorporaram duas dimensões importantes: controle da taxa de crescimento das

despesas públicas, consubstanciado no teto de gastos, redução da segmentação do

mercado de crédito e o consequente aumento da penetração financeira.

O gasto público cresceu ao ritmo de

6% ao ano, além da inflação, entre 1997 e 2016. Com a adoção do teto, o ritmo

caiu para 1%, até o choque da pandemia em 2020. Observa-se, também, que graças

ao constrangimento imposto pelo teto, o gasto deve apresentar importante

contração em 2021 e em 2022, de acordo com as estimativas dos economistas do

Itaú (-22% e -1,5%, respectivamente).

Até meados da década passada, as

concessões de crédito do BNDES, com taxas de juros pouco sensíveis à evolução

da política monetária, correspondiam a cerca de 120% do total de recursos

levantados pelas empresas junto ao mercado de capitais no país. Com isso, o

Banco Central era obrigado a trabalhar com taxas de política monetária muito acima

do padrão internacional, como forma de compensar o efeito reduzido da política

monetária – a Selic praticamente duplicou, subindo de 7,25% a.a. em outubro de

2012 para 14,25% em julho de 2015. Desde então, as operações de mercado de

capitais cresceram muito, enquanto as concessões do BNDES recuavam, e, no ano

até setembro de 2021, equivaliam a apenas 11% dos montantes captados pelas

empresas no mercado de capitais.

As atuais projeções para a evolução

da taxa Selic, capturadas pela pesquisa Focus, do Banco Central, apontam no

cenário mediano do mercado para um máximo de 8,5% ao ano, em 2022 (ou 9% a.a.,

no cenário do Itaú). Essas projeções embutem estimativas para a taxa neutra de

juros na vizinhança de 3% a.a., às quais se adicionam expectativas de inflação

um ano à frente, gerando uma Selic nominal neutra próxima a 7,5% ao ano.

No entanto, caso a política fiscal volte a ser caracterizada pela expansão acelerada dos gastos e caso ocorra uma retomada da segmentação do mercado de crédito, seria implausível esperar que a taxa neutra fique estável. Em um cenário de aumento da taxa neutra para algo como 4,5% a.a., um ponto intermediário entre as estimativas recentes e o que se estimava no período anterior às reformas, dificilmente a autoridade monetária conseguiria trazer a inflação de volta para a trajetória de metas com a taxa de juros nominal em um dígito. Esse é o risco de se considerar, erroneamente, que a taxa de juros neutra independe do arranjo de política fiscal e da estrutura do mercado de crédito.

Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/taxa-de-juros-neutra-em-alta.ghtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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