Por Alexandre Manoel , Valor Econômico
Programa contribuiria para a manutenção das taxas de juros baixas no curto prazo
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O presidente Jair Bolsonaro solicitou publicamente sugestão
para financiar o programa social que substituirá o auxílio emergencial, a
partir de janeiro de 2021. A sugestão deve caber dentro do teto e impedir que
os informais atingidos pela pandemia fiquem desassistidos, contemplando também
a necessidade de suavizar a flutuação da renda nacional, ao impedir que os
beneficiários desse auxílio tenham renda abruptamente interrompida em dezembro.
Cinco pesquisadores1 propuseram um programa que atende aos
requisitos do pedido do presidente Bolsonaro. A proposta deles garante que os
membros das famílias do Cadastro Único (CadÚnico) tenham uma renda mínima de R$
125 per capita. Adicionalmente, os integrantes do CadÚnico seriam contemplados
com poupança Seguro Família, a fim de amenizar a flutuação da renda, programa
Mais Educação, incentivando a educação das crianças e jovens, assim como uma
expansão do programa Criança Feliz, com vistas a fomentar o desenvolvimento
infantil dos integrantes do Cadastro.
Programa contribuiria para a manutenção das taxas de
juros baixas no curto prazo, aplainando as taxas de longo prazo
Com isso, uma família de quatro pessoas integrantes do
CadÚnico teria uma renda de quase meio-salário mínimo, chegando a um valor
maior, dependendo das características da família e das poupanças que o novo
programa orçado em R$ 57 bilhões possibilitaria. O atual Bolsa Família paga
cerca de R$ 192 mensal por família, em média, em um universo muito mais
limitado de cobertura que o Cadastro Único, que permite o cadastramento de
famílias com renda de até meio salário mínimo per capita ou três salários
mínimos de renda familiar total, englobando substancial parcela dos
trabalhadores formais e informais.
A sugestão desses cinco pesquisadores é que esse programa
seja financiado com recursos do Bolsa Família, do Abono Salarial, do
Salário-Família e do Seguro Defeso. Dada a restrição orçamentária, entre as
propostas publicamente disponíveis, essa parece ser a mais simples e efetiva,
conciliando responsabilidade fiscal e social, além de permitir uma implantação
imediata.
Como já existem disponíveis R$ 34 bilhões para o Bolsa
Família na proposta orçamentária que tramita no Congresso Nacional, então
faltam R$ 23 bilhões para tornar o Renda Cidadã já disponível em janeiro de
2021, se tal proposta for adotada. Neste artigo, defende-se a tese de que a
inviabilidade política dessa proposta decorre de as fontes de financiamento sugeridas
não permitirem que o Renda Cidadã seja implantado imediatamente em janeiro.
Isso porque nem os recursos do Abono Salarial nem os do Seguro Defeso ficam
disponíveis em 2021.
Logo, a sugestão deste artigo é que, enquanto o Abono
Salarial e o Seguro Defeso estão sendo alterados e os recursos vão ficando
disponíveis, o que se estima ocorrer em um prazo de dois anos, o Renda Cidadã
seja financiado por meio das disponibilidades financeiras dos Fundos Constitucionais
de Financiamento do Nordeste (FNE), do Norte (FNO) do Norte (FNO) e do
Centro-Oeste (FCO).
A Constituição Federal (art. 159) destina 3% do produto da
arrecadação dos impostos sobre renda (IR) e sobre produtos industrializados
(IPI) para aplicação em programas de financiamento ao setor produtivo por meio
do FNE, FNO e FCO, que totalizam cerca de R$ 14 bilhões por ano. Além destes
recursos, há um retorno financeiro anual de R$ 27 bilhões das operações de
crédito realizadas, R$ 34 bilhões em disponibilidade de caixa e R$ 7 bilhões de
despesas. Isso gera um montante anual de R$ 68 bilhões para ofertar operações
de crédito.
Contudo, nos últimos anos, esses fundos têm efetivamente
emprestado R$ 41 bilhões em média, gerando uma ociosidade de R$ 27 bilhões na
utilização dos recursos. Nesse sentido, há a oportunidade de destinar R$ 23 bilhões
das disponibilidades anuais para financiar o Renda Cidadã, sem prejudicar a
oferta de financiamento ao setor produtivo.
De fato, a ideia é repassar parte das disponibilidades
desses fundos (por um ano) para financiar o Renda Cidadã, enquanto o Abono
Salarial, o Seguro Defeso e o Salário Família vão sendo incorporados. Com isso,
permite-se que o auxílio emergencial não seja interrompido em dezembro, nem
haja necessidade de aumentar carga tributária. Além disso, cria-se o Renda
Cidadã diminuindo-se despesas obrigatórias, sem impacto primário e mantendo o
teto dos gastos públicos.
Entende-se que o teto pode ser mantido sem qualquer
flexibilização. Para que isso ocorra, o governo deve prorrogar o orçamento de
guerra com simultânea medida provisória regulamentando a prorrogação apenas
para fazer face à transição de um ano da reformatação do Abono Salarial e do
Seguro Defeso. Neste caso, não haverá qualquer impacto no resultado primário.
Isso porque o governo cancelará as transferências primárias para esses fundos
em 2021, indo estas para o Renda Cidadã.
Assim, haverá R$ 14 bilhões redirecionados dos fundos e R$ 9
bilhões virão da diminuição de despesas durante a transição do Abono Salarial e
Seguro Defeso, totalizando os R$ 23 bilhões adicionais ao Bolsa Família, a fim
de lançar o Renda Cidadã já em janeiro, sem impacto no resultado primário.
Nasceria, portanto, um programa com responsabilidade social e fiscal, contribuindo
para a manutenção das taxas de juros baixas no curto prazo e aplainando as
taxas de juros de longo prazo, o que restauraria a esperança de mais
investimentos e de um futuro melhor.
Por fim, é possível que haja resistência de personagens das
regiões atendidas pelos fundos, em virtude da diminuição das disponibilidades
no próximo ano. Neste caso, deve-se atentar para o fato de que a oferta de
empréstimos observada nos últimos anos não será impactada e que suavização das
rendas dos beneficiários do auxílio emergencial beneficiará preponderantemente
essas regiões.
1 Botelho, Vinícius et al. Programa de Responsabilidade Social: Diagnóstico e Proposta. Centro de Debates de Políticas Públicas, setembro de 2020, São Paulo
Link da publicação:
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/uma-sugestao-para-financiar-o-renda-cidada.ghtml
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