Por Alexandre Schwartsman, Infomoney
A importância do desemprego-sombra e da relação entre a ancoragem das expectativas e o desempenho das contas públicas no cenário atual

Encerrei minha coluna mais recente
notando que o desemprego-sombra muito elevado – que estimei na casa de
21% em setembro – deve exercer pressão no sentido de redução da
inflação, desde que as expectativas de inflação se mantenham próximas à
trajetória de metas.
Essa estimativa do desemprego, conforme
expliquei, foi produzida sob a hipótese que a proporção daqueles em
idade de trabalhar engajados nesse mercado (empregados ou em busca de
emprego) retornaria à sua média histórica, entre 61% e 62%, contra 55%
observados em setembro.

Dito isso, faz sentido tomar tal taxa de desemprego como a mais
relevante para avaliar o tamanho da folga na economia, um dos principais
determinantes da evolução da inflação?
Acredito que sim. Não
necessariamente porque a taxa de participação deva voltar rapidamente à
sua média histórica, mas porque há motivos para crer que um possível
aumento da procura por trabalhadores nas atuais circunstâncias deve
estar bastante correlacionado ao aumento dessa própria taxa.
Muito,
senão a totalidade, da queda da participação no mercado de trabalho
decorre da dinâmica da epidemia, que representou, como viemos a
aprender, também forte redução inicialmente do consumo em geral, e,
depois do auxílio emergencial, localizada no setor de serviços, o maior
empregador da economia (responsável por pouco mais da ocupação no país
antes da crise). Concretamente, ¾ da perda de empregos se concentrou
nesse setor.
Por outro lado, qualquer recuperação da atividade
econômica digna desse nome passa pela reativação do setor de serviços,
que, por sua vez, depende crucialmente da melhora das condições
sanitárias, como o próprio desempenho do setor, bem pior que os demais,
atesta.
Dito de outra forma, apenas com a superação da epidemia,
e, portanto, da necessidade de distanciamento social é que podemos
esperar a volta mais vigorosa de demanda por serviços e, com ela, da
procura por trabalhadores. Se o fizermos, as pessoas que hoje se mantêm
fora do mercado de trabalho devem retornar a ele.
Sob essa conjuntura bastante particular há, portanto, reserva considerável de trabalhadores para atender à demanda, sempre na hipótese de superação da crise sanitária.
Nesse sentido, se queremos analisar o risco de pressões
inflacionárias persistentes decorrentes de aquecimento do mercado de
trabalho temos que olhar para o desemprego-sombra como termômetro mais
apropriado do balanço entre demanda e oferta naquele mercado.
A
segunda condição para a estabilidade da inflação, também notada na
coluna anterior, diz respeito ao comportamento das expectativas.
Tivemos,
não faz muito tempo, a oportunidade de observar – graças ao trabalho
desastroso de Alexandre Pombini e colegas – o que ocorre quando o BC
perde o controle das expectativas.
Mesmo com aumento considerável
do desemprego então, que dobrou de 6,5% a 13,0%, a inflação atingiu dois
dígitos, caindo muito lentamente até que uma nova diretoria assumisse a
instituição.
Hoje, as expectativas permanecem bem-comportadas, mesmo em face de aumento considerável da inflação de curto prazo.
O
recente anúncio do aumento de tarifas de energia elétrica no final do
ano elevou as previsões de inflação para 2020, mas levou à redução das
projeções para 2021, indicação que não se espera repasse deste aumento
para os demais preços.
De fato, a redução da previsão de inflação
para o ano que vem resulta tanto da projeção menor para preços
administrados (já que o aumento da energia ocorrerá em 2020), quanto dos
chamados preços livres.
Podemos contar com isso indefinidamente?
Não, e o relógio corre contra nós. As perspectivas de contas públicas
seguem se deteriorando, fenômeno que pode ser agravado caso a segunda
onda obrigue à prorrogação de medidas como o auxílio-emergencial e a
ajuda aos estados, ainda que em escala menor.
Sem medidas de
correção do desequilíbrio fiscal, o espaço para uso da política
monetária quando a economia se normalizar vai se tornar reduzido e, no
limite, inexistente. Se chegarmos a tal situação – provável caso
reformas permaneçam no limbo – perderemos o controle das expectativas.
É
preocupante, pois, a paralisia nessa área. Tanto Executivo quanto
Legislativo só têm olhos para a sucessão das mesas diretoras das casas
do Congresso, enquanto a dívida não para de crescer.
Se, e quando, nos movermos, pode ser pouco demais e tarde demais para lidar com o problema. Acima de tudo, precisamos urgentemente de um forte sentido de urgência.
Link da publicação:
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
