Além da pandemia, os processos eleitorais constituem fator de risco adicional a ser monitorado pelos investidores com exposição à região
VALOR
O ano de 2021 terá
um calendário político bastante movimentado na América Latina, o que pode
adicionar certa volatilidade aos ativos locais, bem como influenciar o ritmo de
recuperação econômica ao longo do ano. Teremos eleições para o Congresso e
governos regionais na Argentina, eleições gerais, e constitucionais, no Chile,
renovação do Congresso mexicano, e a seleção de um novo presidente e Congresso
no Peru. As eleições ocorrerão em circunstâncias excepcionais, já que serão
realizadas antes da superação plena das dificuldades ocasionadas pela pandemia
de covid-19.
Na Argentina,
metade dos assentos na Câmara estarão em jogo, e um terço do Senado. Aparentemente,
o pleito será disputado entre duas amplas coalizões. Do lado governista, a
Frente de Todos. Na oposição, Juntos por el Cambio, coalizão governista no
ciclo anterior, que teve bom desempenho nas eleições de 2017, e que, portanto,
parece ter mais a perder no pleito desse ano.
É consenso, entre
os observadores da conjuntura argentina, que o governo Macri começou a se
complicar quando, priorizando tal desempenho eleitoral em 2017, adotou uma
postura excessivamente gradualista na correção dos desequilíbrios macro – o que
contribuiu para a deterioração do desempenho da economia na segunda metade do
quadriênio e, eventualmente, para a derrota eleitoral em 2019.
O governo Fernández
não tem dado sinais de que vá abandonar a postura heterodoxa (controles de
preços, controles de capitais, políticas de demanda relaxadas), e parece estar
contando com a compreensão do FMI, a alta dos preços de commodities, e a
persistência do ambiente global de juros baixos para chegar não só às eleições
desse ano, mas às presidenciais de 2023 em condições competitivas. Não há uma
métrica simples para definir vitoriosos e derrotados nessa eleição, mas parece
razoável comparar os totais de votos das duas eleições com o que foi obtido na
presidencial de 2019, bem como monitorar o resultado na estratégica província
de Buenos Aires.
O Chile terá, do
ponto de vista político-eleitoral, o ano mais intenso da região. Seus eleitores
vão votar para o Congresso, presidente, governos regionais, bem como, mais
importante, uma Assembleia Constituinte. As eleições para a Assembleia
Constituinte serão em abril, para presidente e membros do Legislativo em
novembro. A distribuição das forças políticas do país, que parece relativamente
equilibrada, bem como uma regra de 2/3 para aprovação de propostas, pode
limitar o escopo para mudanças, mas o mais provável é que os constituintes
concentrem seus esforços na ampliação da rede de proteção social (saúde, pensões
e acesso a serviços públicos).
As eleições
presidenciais devem ser caracterizadas por uma disputa entre três coalizões,
Frente Amplio (esquerda), Nueva Mayoría- Concertación (centro-esquerda) e a
direita. O resultado irá depender da consistência das coalizões e do desempenho
da economia. Esta, com o processo de vacinação mais bem organizado da região, e
com o amparo de políticas de demanda expansionistas, pode crescer cerca de 6%
no ano, algo que deveria ajudar forças do establishment. Por outro lado, caso
se consolide a percepção de que as mudanças constitucionais não irão atender às
expectativas redistributivas da população, o voto de protesto pode se mostrar
mais expressivo.
No México, o
governo Lopez Obrador enfrentará seu primeiro grande teste eleitoral. A câmara
baixa será integralmente renovada, e 15, entre 32, governos de Estados estarão
em disputa. AMLO, como o presidente do México é conhecido, tem em comum com os
líderes populistas sul-americanos o forte apelo eleitoral e um alto grau de
engajamento, além dos partidos, com as massas.
No entanto, do
ponto de vista de política econômica, AMLO tem mantido uma postura cautelosa no
lado macroeconômico, com rígido (talvez excessivamente rígido) controle sobre
os gastos e respeito à autonomia do banco central (embora alguns aliados
políticos estejam trabalhando em propostas que podem conflitar com a
independência da instituição). É no que se refere ao ambiente de negócios e, em
especial, o setor de energia, que o governo tem se mostrado mais intervencionista.
O carisma de AMLO,
que não encontra competição entre os partidos oposicionistas, deve ajudar
candidatos governistas ao Congresso, bem como aos governos estaduais. A
oposição se uniu na disputa por 171 de 300 vagas (uma por distrito eleitoral)
na Câmara dos Deputados que terão eleição direta (as 200 restantes serão
alocadas em proporção à votação dos partidos obtida em cada uma das 5 regiões
do país, com base em uma lista fechada apresentada por cada partido para cada
região), o que pode torná-la mais competitiva.
Olhando de hoje, a
votação será no início de junho, o mais provável é que Morena, o partido de
AMLO, seja bem sucedido nas eleições estaduais (seus candidatos estão bem
posicionados em pesquisas eleitorais) e tenha performance no mínimo razoável no
pleito legislativo, sem grandes alterações na correlação de forças no
Congresso.
Se o critério fosse
apenas a estabilidade do cargo presidencial, o Peru seria considerado o país
mais volátil da região. O atual mandato presidencial teve quatro ocupantes
diferentes, e o Congresso chegou a ser dissolvido. No entanto, o país conta com
fundamentos sólidos: baixo endividamento do setor público, reservas
internacionais amplas e um banco central independente. Com isso, apesar de ter
sofrido um impacto fortíssimo com a pandemia da covid-19, a economia mantém
confortável acesso aos mercados internacionais.
Os eleitores
votarão em abril para eleger um novo Congresso (unicameral) e presidente. A
campanha eleitoral, e a votação, ainda ocorrerão sob o espectro da pandemia,
aumentando a chance de que candidatos anti-establishment tenham bom desempenho.
A única projeção mais segura, neste momento, é que o Congresso muito
provavelmente seguirá sendo altamente fragmentado, o que implica condições
desafiadoras de governabilidade para o novo presidente. Caso persistam, as
dificuldades e volatilidade política podem, eventualmente, começar a fragilizar
os fundamentos da economia, notadamente no que no que tange ao ambiente de
negócios e à política fiscal.
A partir de abril, teremos eleições importantes em várias das maiores economias latino-americanas. Além da pandemia, e não descorrelacionados com a evolução da mesma, os processos eleitorais constituem fator de risco adicional a ser monitorado pelos investidores com exposição à região.
Para mais detalhes, ver Macro Vision: 2021 – a busy political year in Latin America
Link da publicação: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/voto-latino.ghtml
As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.
